sábado, 1 de junho de 2013

De menina para menino



Ontem te vi comprando figurinhas numa banca de jornal no centro da cidade. 

Eu estava do outro lado da calçada chupando um sorvete de pistache que, logo logo derreteu entre meus dedos, melando toda minha mão. [distração]

'Você me distraiu de novo?!' Esbravejei comigo mesma, batendo o pé no chão e fazendo um 'muchocho' com a boca, deixando clara a minha revolta para esse meu lado 'boba'.

Enquanto tentava limpar minha mão na barra do vestido dado pela dindinha, via você sumir entre os carros, apressado em seu galope, com a pasta de lado...acho que iria, atrasado, pegar um táxi para o trabalho ou o ônibus para o colégio. 
Virei as costas e fui embora e não vendo o buraco da obra, quebrei o salto.

O dia estava perfeito: Melada de sorvete, vestido sujo, salto quebrado. Só faltava eu chegar em casa e a 'melissa' [minha boneca de pano] não ter chegada da lavanderia. Ou seja, não teria uma amiga para contar de você e da catástrofe que se abateu em meu dia.


Viu? Culpa sua!

Culpa sua eu recusar a mão da mãe para atravessar a rua, ou do menino mais jovem para abrir a porta do carro. Culpa sua ninguém me oferecer o banco do ônibus pra sentar e de não lembrar mais o gosto do chocolate, pois foi tirado de mim, pela 'bá', depois que a dentista avisou que eu não tinha mais dentes de leite...que já era 'mocinha' até para 'regrar'. Culpa sua meu diário não ter mais páginas em branco. [Só não lembro se foi meu garrancho de quem aprendeu a escrever ou se foi  meu garrancho de quem desaprendeu a ter firmeza na mão, que ocupou todos os espaços dedicados a nós dois.]

Me falta o tato.
Me falta o gosto.
Me falta você. 

Hoje te vi numa lanchonete bebendo um líquido amarelo num copo enorme, acho que era suco de laranja [ou cerveja]. Bebia com tanto gosto e nas pausas do deleite, ria com um sorriso tão vaidoso que...ai, suspirei como se fosse um sorriso pra mim. E claro que não era! 
Enquanto você ria, meu suspiro levava pra longe o laço que voava dos meus cabelos e enfeitava de bege o céu absurdamente azul de 14 de maio, não sei agora, se era de 92 ou de 2013...aliás, culpa sua me fazer perder o tempo [e meu laço].

Culpa sua, me brindar com o mais interessante dos seus dias e não lembrar em que fase da minha vida me encontro.