domingo, 27 de novembro de 2011

Consultório d'alma




Numa sala fechada, duas pessoas se olham. Uma delas sou eu.
Os olhares variam entre a timidez, a estranheza e a preocupação em saber quem vai resolver o que no mesmo lugar, com a mesma pessoa (o médico).
Um deles levanta e o outro (no caso, eu) acompanha com os olhos o movimento rápido do outro ao atender o chamado do médico que pede com a voz firme que entre e seja consultado.
(A ansiedade me consome! Detalhe  nos meus pés, impacientes, batendo no chão).

Minutos passam e nada dele sair da sala...

Depois de um bom tempo, o paciente sai, com um sorriso no rosto e uma expressão otimista, como se estivesse pronto para viver anos extraordinários. Como se ao atravessar a porta do consultório pudesse encontrar a esperança que eu não tinha (pelo menos, não vista por mim em seu olhar).

Engoli a seco, pois sabia naquele momento que um raio não cai duas vezes no mesmo consultório, digo, sala, digo lugar.
Fui chamado.
Demorei um pouco para entender que aquela era a minha hora de viver ou morrer outra vez. Relutei em me levantar e quando o fiz, pude ouvir até o barulho da minha musculatura, o rangir dos meus ossos no ato lento de me colocar de pé. Era a minha vez .

25 de Novembro...

Eu não escrevi esse mês. Justamente o mês em que dá nome ao meu blog. Criado com tanto amor por mim a fim de expressar tantas coisas, tantas sensações.
Fiz 30. Cheguei aos 30. Três décadas se passaram e eu aqui, firme como uma rocha. Caído em algumas situações e de pé na maioria delas. Uma rocha mesmo.
Quantas pessoas podem dizer que conseguem se manter sozinhas aos 30 anos sem a dependência ou carência de ter alguém para dividir problemas e compartilhar soluções, sem ser frustrada com o fato de não ter chegado no lugar esperado e conseguir conviver com a dor e a delícia de ser o que é?
Poucas né? Faço parte desse nicho...
Não me envergonho do que fui ou do que sou. Nunca me envergonhei. Descobri hoje um amor por mim que nunca soube que pudesse sentir. Descobri que posso me permitir fazer coisas com as quais eu posso conviver naturalmente, mesmo que visualmente possa agredir A ou Z. Mas também posso passar dias em um casulo e só sair quando asas brotarem nas minhas costas.
Hoje, foi um dia particular. Dia em que morri e nasci de novo. Mas a melhor parte é quando você consegue querer nascer outra vez... as palavras e os sons ficam mais claros, tudo mais alto e os sentidos como se nunca tivessem sido usados. Não sei se dá pra sentir isso duas vezes mas, acredito piamente que eu consegui. Eu nasci de novo.
Quando entrei no consultório, pude ver que o esgoto estava todo lá. Não tinha carpete, só uma lama que me trazia para baixo e pudia ouvir gritos dessas pessoas tão iguais a mim que não puderam sair, que estavam presas... quando a porta se abriu, uma coisa boa veio dentro de mim, tão boa que me fez deixar aquelas pessoas tão iguais a mim se afundando e eu, serenamente me livrando de cada pedaço de lama grudado. Abrir a porta do consultório foi como ver a luz, e eu vi.

Nesse exato momento eu penso em praia, em sol, em brisa, em...sozinho. É, sozinho!
Que parte do "sou-melhor-sozinho" não da pra entender?
Tem pessoas que precisam de muitas pessoas pra se sentirem amadas e queridas e eu só preciso de mim.
Agora entendo o alívio no rosto daquele rapaz que saiu do consultório.
Relutei pra não me afogar, pra não ser tragado pela lama daquela sala e meu esforço foi tão grande que me permiti arrancar pedaços da minha carne para viver uma única vez aquilo que me foi proposto a anos atrás.
Se leva tempo para aprender com os erros e segundos para entender tudo já vivido.
As vezes, precisamos nos afundar em um mar de lama pra saber que é muito fácil sair dele...basta abrir a porta.

E e eu abri...