terça-feira, 24 de agosto de 2010

O meu Divã.



...Sempre quando saio da faculdade, do trabalho ou da rua, chego em frente a porta de casa com a sensação de que algo ficou por dizer.
Essa sensação de, achar que sempre ficou algo por dizer, é uma característica bem minha, sabe...eu sempre tenho um restinho que fica ou um “q” de  "quero mais" que habitualmente só “eu quero”.
Digo isso, pois, noto nas conversas interessantes ou em rodas de amigos em algum bar, que determinados assuntos podem levar a discussões homéricas ou apenas a alguns intervalos olhando o outro lado da rua, ou levando o copo na boca ou simplesmente rindo do que o colega da frente disse. Mas sempre acabam, mesmo sendo desinteressantes, no meu travesseiro antes de dormir, ali, fazendo barulhinho irritante, tipo do aparelhinho de obturação.
Eu sou insaciável. Não queria admitir, mas sou.
Essa coisa de falar, falar a verdade ou mesmo não falar a verdade, quando é benéfico (sim, pois a omissão é uma palavra menos pecaminosa que mentira) me leva a crer que sou extremamente carente.
Ta aí, doutor, eu sou carente.
Carente de pai e mãe, carente de amigos, carente de bichinho de pelúcia, carente de amor genuíno.
Estar sozinho tem sido uma coisa tão estranha...digo...se vou ao shopping em um dia que não quero chegar cedo em casa por ficar SOZINHO, acabo na extrema solidão quando me deparo com uma série de pessoas que estão acompanhadas.
Queria entender por que a necessidade de estar sempre junto de alguém.
Eu não preciso de alguém pra ir comprar algo pra mim.
Já tive essa coisa de “personal friend” com alguns amigos que, precisam da minha opinião pra assuntos que sempre levo pra casa. (vide o texto do primeiro parágrafo).
Que droga!
Meu lado egoísta diz: “Alow, também tenho vida”!
Pago contas, cuido dos que precisam realmente de mim, cuido dos amigos, cuido do meu sexo casual, mas não cuido do meu...é...do meu...como se diz, aquela palavra de quatro letras fundamental na vida do ser humano...é...
    
       - Amor (?!)

Bingo, doutor, é isso aí, amor!
(Ah, o amor...)
Esses dias, numa dessas de não querer ficar sozinho, fui ao shopping assistir a um filme, o primeiro que estivesse dentro das minhas possibilidades e responsabilidades com horários e quando vi, estava na fila do cinema, com meu all star vermelho, calça justa e um casaquinho de frio, comendo qualquer dessas porcarias que se vende na porta da sala onde iria assistir o tal filme (não era pipoca porque odeio.).
Me deparei com a cena clássica: casais. E eu, o único solteiro da fila.
Deus, por que essa necessidade de andar em bando, de estar sempre junto a alguém?
Não entendo...
Aos 16 eu já fazia viagens interestaduais aos domingos a tarde, ou sábados (não lembro), escondido dos meus pais, só para conhecer lugares. Confesso que algumas vezes me perdia, outras não, mas nunca precisei de alguém pra estar ali, grudado, entende?
Cresci assim...hoje, estou aqui e nem tem ninguém ali fora me esperando...nada...decidi vir sozinho. Não contei pra ninguém...

Na verdade, não contei por medo.

Medo de dizer pra alguém que faço terapia,
medo de dizer que me sinto sozinho.
Medo de confessar que, os beijos e os abraços na fila do cinema, deveriam ser dados a mim. Eu merecia a risada alta, eu merecia ser esperado na porta do shopping por alguém...eu merecia estar na ultima fileira daquela sala escura e fria.
Eu merecia a conversa ao pé do ouvido no escuro, sem prestar atenção em nada.

...Ah, o filme não foi interessante, achei surreal demais...( A Origem – Leonardo Dicaprio).
Dormi em alguns instantes... acordei em outros mas, foi surreal demais ainda sim.
Minha vida anda surreal, doutor.
Os amores deram espaços à solidão, espaços do tamanho das pegadas de um gigante e eu, ando dormindo dentro dessas pegadas.
Sinto falta do que não vivi.
Sinto um dejavu da minha própria vida (que não aconteceu). Assim...(Ainda).

Aliás, acho que está na hora de ir, não é Doutor...
Meu tempo acabou.
Bem, na falta de alguém pra desabafar, vou falar comigo mesmo...talvez assim, eu me faça a melhor companhia até agora, mas eu volto também, é sempre bom falar com você!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Trancado em mim.



Os olhos mais lindos eram cobertos por uma timidez que chegava a ser perturbadora todas as vezes que eu o via.

Engraçado que a beleza sempre foi uma coisa tão relativa pra mim, tipo, como a paixão pode dar espaço para amizade, ficando anulada, intrigada, morta e esquecida. Como pode ser normal um jeito de andar, uma forma de falar ou cantar, tornando-se cada dia mais presente na vida de alguém, na minha vida.

Acostumei-me com um sentimento, acostumei-me com um modo particular, com uma vontade particular, com um “amar” tão rosinha.
Ele é rosa...
Ele é criançinha,

Ele faz beiçinho e todas as brigas sempre terminavam em lágrimas trancadas em um apartamento que não tinha mobílias.

Ele se tornou o maior amor da minha vida e nunca consegui abrir a porta.

Eu o mantive em cativeiro dentro de um apartamento preso por uma pilha de livros que usei para trancar a porta, jogando a chave fora, mesmo a porta estando aberta. Ele nunca teria força pra abrir, por ser criança.

Meu pequeno gênio.

Ele cresceu um dia, meio a contragosto meu, mas ainda sim estava lá.

Cresceu dormindo...

E eu o amei por não ter a capacidade de estar acordado na hora de crescer...

Quando me mudei, quando forcei uma mudança em meu mundo, escutava-o, todos os dias chorando, resmungando minha atitude cruel de deixá-lo preso dentro do apartamento.

E o mundo ia girando, e ele lá, crescendo...e eu pequenininho na minha saudade...

Dado momento, quando estava fraco, triste com meu mundo, o homem abriu a porta e foi embora, colocando-se frente a ela , empurrando, derrubando os livros, saindo do apartamento e ganhando o meu mundo.

Ele caminhou até a minha direção e se apresentou como “o tudo que você precisa”.

Deu-me dias de sorrisos, muitos dias de tempestades e muitos, mas muitos dias de lágrimas.

Ele se tornou em alguns dias a maçã cobiçada, a veia pulsando louca pra jorrar, o melhor livro da pilha que escorava a porta e super gostoso de ler... ele se tornou o all star sujo, o braço mais gostoso pra se deitar e o sorriso mais lindo de se ver. O hálito, mas gostoso de ser ouvir (nunca eu, podendo sentir).

Ele voltava sem querer para o apartamento, mas dessa vez com passagem livre, com a porta aberta... Eu não precisava mais mantê-lo lá, ele poderia voltar, pra lá, pra mim, quando quisesse voltar.

Mas nunca voltaria quando eu quisesse...

Passei a me acostumar com meu pequeno grande homem, com meu Peter Pan de terno e gravata, que pagava contas e sustentava família.

Sabe, uma vez ele me levou para voar, foi cavalheiro, segurando em minha cintura e me deixando entrar em lugares que nunca entrei, nunca da forma em que esperava.

E o mais lindo dessa liberdade concedida era que, ainda com os olhinhos de criança, conseguia brincar comigo, me deixando cair, às vezes, pertinho do mar e voltava a me segurar quando meus dedos dos pés tocavam suavemente as ondas...

Ah, que delicia sentir o vento no rosto... Que delicia sentir-lo respirar fundo, perto do meu pescoço quando, nas alturas, cantava pra mim... Ele cantou e eu quase dormi.

Dormi no ar...

Sonhei que um dia ele me abraçava forte, sonhei que um dia ele me amou, sonhei que um dia ele me agrediu com palavras, sonhei que um dia ele voltou para o apartamento.

Ele me deixou em casa e voltou para voar com outros iguais a ele, e eu fiquei no último andar vendo-o ir embora, deixando aquele perfume no ar, o cheiro da saudade desenhando no céu a letra “L”.

De Liberdade...

A minha cama nunca esteve tão gelada e o meu sono, tão perturbado. O meu desejo nunca esteve tão abalado. Eu era forte antes de mantê-lo preso em mim.

Ele não volta, isso é fato! E mesmo sabendo que nunca poderei trancá-lo outra vez, vivo.

Convivo. Converso. Sinto de longe...agora mais claro, ele cresceu, entende meu olhar, entende minha espera. Entende minhas desculpas quando ligo ou falo algo sem sentido só pra senti-lo mais perto.

E assim eu o amo.
Os olhos mais lindos continuarão cobertos por uma timidez perturbadora e eu continuarei a olhá-lo, implorando para que volte e me de um abraço.
Só isso que eu queria dele...

A volta, pra dentro
de mim, pra mim.

domingo, 8 de agosto de 2010

Ah, se eu vou...


Bem, tenho sido privilegiado por estar sempre sendo apresentado a boa música por grandes amigos queridos e claro que tamanha alegria não poderia ser "egoístamente" mantida só pra mim.

Estou falando de uma cantora de voz suave e que transforma o palco em um ritual sagrado por conta do respeito que a toma toda vez em que os pés poe nele.

Estou falando de ROBERTA SÁ. Uma cantora cuja personalidade transcende qualquer barreira da vaidade em cena. Cantora jovem e ao mesmo tempo experiente na arte de conquistar através do rodar de sua saia querendo rodar; uma cantora que desperta em nós uma paixão única. Nos faz esquecer que temos problemas lá fora e, ao ouvi-la, nos damos momentos de entrega ao cantar frases como "...Agora sim me sinto mais inteira..." afinal, amor assim, não tem não, quem não queira.

Milhões de personalidades no meio da música se deixam levar pelo dinheiro e acabam decepcionando boa parte de seus fãs. Foi o caso de Jason Mraz, que hoje faz músicas apenas para vender, mesmo antes, quando ainda não tinha essa projeção tão gigantesca, fazia um bem maior aos meus ouvidos...

Ok, nunca guardei pôster ou álbum de ninguém, talvez na minha adolescência sim, mas sabe qual a melhor parte de ter "quase trinta"? A gente passa a dar valor as coisas boas da vida e por tabela passa a escolher melhor a roupa em que quer comprar, não pela marca e sim pelo tecido, pela durabilidade, a música que vai ouvir e assim vai...

Esses dias, uma amiga "quase 50", depois de nos encontrarmos na rua (ela ama Luis Melodia), pediu meu telefone, tendo em vista que pouco nos vemos e pouco nos falamos por conta da distância e de nossos compromissos. Quando saquei do bolso meu humilde telefone dado pela operadora, ela olhou surpresa comparando ao dela e começamos ali a falar da facilidade do aparelho e de sua praticidade, resumindo, ouvi um sonoro "Você está amadurecendo" que encheu minha manhã de sorrisos...

Porque disso: Antes, eu avaliava meus pertences, como celular, por exemplo, por conta da beleza. Quanto mais caro melhor.

Quando jovem, estar a frente era uma necessidade. Competição nem pensar, estar a frente sempre. Seja com o aparelho mais caro, com o jeans menos usado pelos colegas, seja pelo lugar menos visitado pelos outros e descoberto por mim.

E isso também era avaliado na hora de escolher meu repertório no "k7".

Escutar o que esta na moda antes que outras pessoas era lei.

Imagina se eu aceitaria ser influenciado "musicalmente" por algum amigo. Nunca! Hoje descobri que meus melhores amigos estão ligados a minha personalidade musical.

Roberta Sá foi um presente de aniversário ano passado. Um presente mesmo!

Minha amiga jornalista Clarissa Coli (hoje, afilhada de casamento), toda sem jeito, com medo de não me agradar entregou, em mãos, "Que belo estranho dia para se ter alegria".

Bem, já havia ouvido falar da tal cantora, pouco popular na minha roda de amigos, já tinha até ouvido uma música na novela e tal, mas, segundo Clarissa, era a minha cara aquele cd.

Obvio que logo pela capa, de cores suaves, parede descascadas na foto, me agradou. Ainda sou apaixonado pelas coisas simples que...ops...bastou colocar o cd pra rodar e ver que a simplicidade se limitava a capa, pois o conteúdo era extremamente agradável e irresistível.

Roberta consegue dar a sua voz cores, tons pastéis, vermelho sangue, azul celeste...

É sim! Quem nunca viu cor nas músicas, que atire a primeira clave?!.

Eu vejo sempre que as ouço. E me transporto ao miudinho das letras antigas, feitas por grandes nomes...como por exemplo Chico Buarque de Holanda, um dos maiores poetas da história musical.

Bem, serei breve em dizer que estava devendo um post sobre Roberta Sá, entretanto, dentro do meu breve, incluo que só reafirmei que Roberta é minha segunda melhor cantora (depois de Maria Bethânia, sereia), quando, mais uma vez por incentivo de um amigo, pude comprar o DVD, "Pra se ter alegria", gravado em abril do ano passado no Vivo Rio.

Estupendo! Tão particular, tão requintado e ainda sim consegue ser simples. Vale ressaltar que pra mim, o auge do show, está por conta do barulhinho gostoso das cordas do violão que, como cortinas de um teatro, apresentam a música que dá título a este post.

Surpresa boa pra quem vê Roberta bailando, fechando os olhos e se entregando feito uma menina ao furor da platéia que a clama com gritos de "Maravilinda"... Expressiva essa menina que canta sorrindo...expressiva ela...

Bem, agora, caro amigo, cabe a você avaliar se, estou ou não certo. Ouça.

Aprender a amadurecer é a melhor parte da vida. Independe de idade e "tempo de casa"

A ajuda de bons amigos é fundamental, aprender com estranhos também, aprender com os velhos então...é necessário.Escutar quem já viu e viveu mais que a nossa "pseudo sabedoria", nos dá a possibilidade de encarar pontos que até então estamos sempre, ocupados demais para enxergar.

Não há ocupação que transcenda a contemplação.

Só consigo entender isso hoje, quando me dou um tempo, sentado em alguma praça e vejo que ainda há um pai, mesmo cansado do seu dia de trabalho, diverte-se escondendo da filha que, ao encontrá-lo aninha-se em seus braços como quem diz "que bom que você está aqui".

Hoje sei o que é boa música, hoje entendo por que minha amiga "quase 50" falou que eu estou amadurecendo. Aliás, cada dia mais irei aprender com as canções que Roberta canta...

Ah se eu vou...